Sindicatos Médicos:

 
Você não está logado
Entrar | Cadastrar

MG: seminário discute desafios da implantação do protocolo de Manchester na rede básica de saúde



03/10/2011
A implantação do protocolo de Manchester na rede básica de saúde de Belo Horizonte (MG) tem suscitado muitas dúvidas e apreensão entre os médicos da Prefeitura. O interesse pelo tema levou o Sindicato dos Médicos de Minas Gerais (Sinmed-MG) a promover, em parceria com a Associação Mineira de Medicina da Família e Comunidade (AMMFC), um seminário, realizado em 28 de setembro.
O Manchester – classificação dos pacientes por cores, conforme a urgência do atendimento - já era utilizado nas unidades de urgência e emergência com o propósito de organizar o fluxo de pacientes. Em março deste ano, a Prefeitura iniciou a implantação do protocolo em 24 postos de saúde, em caráter piloto.

"A repercussão do seminário foi enorme e mostrou claramente a necessidade de aprofundar e envolver a categoria nas discussões", disse o diretor do sindicato e médico de família e comunidade, André Christiano dos Santos. Mais de 200 médicos participaram do evento e para ampliar a discussão o seminário foi transmitido on line via internet, gerando mais de 400 acessos no site do sindicato, dezenas de perguntas e um concorrido "chat".

O diretor do sindicato e presidente da AMMFC, Artur Oliveira Mendes, abriu os trabalhos, dizendo que Belo Horizonte é referência nacional na atenção primária e que o objetivo do seminário era esclarecer dúvidas e propor soluções para que a assistência possa ser organizar melhor e oferecer um atendimento de qualidade à população.

Além da Secretaria Municipal de Saúde de Belo Horizonte, representada pela secretária adjunta, Susana Maria Moreira Rates, e pela coordenadora de implantação do Manchester na Atenção Primária (APS), Juliana Dias Pereira, o evento recebeu dois convidados de Curitiba, segunda cidade do país a implantar a classificação de risco na atenção básica. Foram eles: Welfane Cordeiro Júnior, consultor da Secretaria Municipal de Saúde de Curitiba e médico intensivista, e Marcelo Garcia Kolling, presidente da Associação Paranaense de Medicina de Família e Comunidade de Curitiba e médico da UBS Monteiro Lobato.

O médico Fabiano Gonçalves Guimarães, do PSF São Bernardo, de BH, também deu importante contribuição ao tema ao relatar os desafios das equipes para atender ao protocolo. Também participou Maria Aparecida Turci, superintendente de atenção à saúde, em Contagem.

Modelo em construção

O consultor, Welfane Cordeiro Júnior, explicou que o sistema de classificação de risco passou a ser utilizado de forma sistêmica em 1997, em Manchester (EUA). Por isso, a literatura sobre o assunto, além de escassa, é voltada principalmente para as redes de urgência e emergência. "Esse é um modelo de organização ainda em construção", disse, lembrando, no entanto, a efetividade do protocolo para a redução da mortalidade.

Segundo ele, o sistema de classificação veio muito em cima da hiperlotação, numa tentativa de organizar o atendimento e estabelecer prioridades, mesmos objetivos que levam agora a implantação na atenção básica. "Curitiba, optamos pelo Manchester por ter regras bem definidas, nomenclatura comum e uma metodologia sólida, baseada na técnica", disse.

Welfane destacou o pioneirismo das experiências de Belo Horizonte e Curitiba na aplicação do protocolo na atenção primária, e disse que pretende apresentar os casos no Congresso Internacional de Oslo, ano que vem.

Em seguida, a superintendente de atenção à saúde, de Contagem, Maria Aparecida Turci, fez uma explanação sobre o conceito e objetivos da Atenção Primária na Saúde (APS). Para ela, o verdadeiro problema não está na implantação do Manchester nas unidades básicas, mas no tamanho da população atendida por equipe e na falta de estrutura dos centros de saúde. "Enquanto não houver recursos suficientes na atenção primária, os serviços de urgência vão continuar atendendo os casos verde e azul", disse.

Projeto piloto para ajustes

"A utilização do Manchester na Rede Básica de Saúde de BH" foi o tema da secretária adjunta de Saúde, Suzana Maria Moreira Rates, e da coordenadora da implantação do Manchester na Rede Básica, Juliana Dias Pereira.

Susana disse que a implantação é uma diretriz da gestão para aprimorar o sistema de saúde. Segundo ela, o protocolo já foi adotado em 18 das 24 equipes escolhidas, do total de 560 do município, para a implantação piloto do programa: "A secretaria está acompanhando de perto cada unidade, com o objetivo de corrigir distorções e fazer os ajustes necessários antes de disseminar o processo na rede de atenção básica. Essa avaliação vai nos ajudar também no destino dos recursos", disse.

Ela informa que as ações da Prefeitura para implantação do Manchester incluem: seleção das unidades, panfletos para a população, oficinas de qualificação das equipes, revisão dos medicamentos e materiais de urgência nas APS, entre outros.

A secretária adjunta reconheceu que é preciso aumentar o número de equipes proporcionalmente à população – hoje a média é de 4 mil pessoas por equipe - , mas culpou o Ministério da Saúde pela falta de recursos.

Considerando o seminário muito proveitoso, Susana disse que é "importante ter tranquilidade para debater e buscar soluções para esses desafios de uma forma conjunta".

Em seguida, a coordenadora JulianaSantos disse que a escolha do protocolo partiu dos princípios do SUS de universalidade e integralidade do atendimento e lembrou que a política nacional de humanização já propõe a organização da fila de espera de forma a garantir maior rapidez no atendimento de alto risco.

Ela lembrou que a portaria 1.600 do MS de 7 de julho de 2011, que reformula a Política Nacional de Atenção às Urgências e institui a Rede de Atenção às Urgências no Sistema Único de Saúde (SUS), fala que "o atendimento aos usuários com quadros agudos deve ser prestado por todas as portas de entrada dos serviços de saúde do SUS, possibilitando a resolução integral da demanda ou transferindo-a, responsavelmente, para um serviço de maior complexidade" e que a "Atenção Básica em Saúde tem por objetivo a ampliação do acesso, fortalecimento do vínculo e responsabilização e o primeiro cuidado às urgências e emergências, em ambiente adequado, até a transferência/encaminhamento a outros pontos".

Segundo a coordenadora, a implantação do Manchester vai corrigir várias distorções que existem hoje nos centros de saúde, relacionadas ao atendimento, apontando entre as vantagens do sistema mais segurança para o usuário e para o profissional e linguagem única na rede (nomenclatura padrão). "O Manchester é rápido, objetivo e reproduzível, tem alta precisão e não trabalha com diagnóstico, mas com sintomas dentro de um padrão internacional", avalia.

A coordenadora também esclareceu algumas dúvidas dos médicos relacionadas ao fluxo de atendimento nas unidades com a implantação do Manchester. Segundo ela, o protocolo não tem o objetivo de acabar com os limites de pacientes para o atendimento e com os horários de fechamento das unidades: "Nesses casos ,os pacientes que aguardam atendimento ou excederem à capacidade da unidade devem ser encaminhados para as UPAS". Juliana também nega que seja necessário a criação de equipes de plantão para atender ao Manchester e reforça a necessidade das UPAS atenderem os pacientes classificados como verdes e não mandá-los para os centros de saúde, como muitas vezes acontece.

Médicos de Curitiba e Belo Horizonte relatam experiência com o Manchester

Algumas das vantagens apontadas pelos gestores foram questionadas pelos dois médicos que relataram as impressões sobre a implantação do Manchester em suas unidades: Marcelo Garcia Kolling, da UBS Monteiro Lobato, em Curitiba; e Fabiano Gonçalves Guimarães, da UBS São Bernardo, em Belo Horizonte.

Marcelo conta que em Curitiba não houve projeto piloto. O Manchester já foi implantado em 100% das unidades, o que gerou bastante apreensão no início, mas agora a adaptação está melhor.

Segundo ele, a classificação trouxe ganhos na organização do atendimento, mas a facilidade em adotar o novo protocolo varia de unidade para unidade, dependendo até mesmo dos profissionais que a compõem. "A nossa UBS era muito organizada, com prioridades para os atendimentos agudos, então não houve grandes mudanças", disse.

Já o médico Fabiano relatou a verdadeira odisseia que está sendo a implantação do Manchester na UBS São Bernardo. Já foram testados vários formatos de organização do fluxo do serviço, com grande desgaste da equipe. Uma das conclusões, segundo ele, é que as equipes de referência, como proposto, não funcionam.

A questão da heterogeneidade das unidades ficou clara nos depoimentos dos dois médicos. Enquanto Marcelo relatou que a demanda diminuiu, Fabiano falou da sobrecarga de trabalho para os médicos que agora precisam ver todos os pacientes. Relatou também situações de desgaste com os pacientes, que não entendem o novo sistema e até uma certa dificuldade interna de determinar se a queixa é aguda ou crônica.

Algumas conclusões foram comuns aos dois médicos:

- não tem classificação de risco que dê conta de uma demanda exagerada;

- ausência de integralidade na abordagem, porque existe uma tendência de se basear na queixa conduta, o que foge ao objetivo primordial da atenção primária

- ausência de individualização na avaliação de cada caso, visto que os sintomas já vêm listados

- redução substancial na resolutibilidade de outros membros da equipe do programa, por ser centrado no médico

- sobrecarga da enfermagem que faz o primeiro contato e preenche o Manchester

- o Manchester não leva em conta a vulnerabilidade social

- risco de quebra do vínculo com os pacientes

- o Manchester é centrado na doença e tira o foco do pessoal, trazendo desumanização da subjetividade da narrativa do usuário, em prol de um protocolo informatizado.

"Que tipo de vínculos gostaríamos que a comunidade tivesse com a equipe? Como não discriminar pacientes mais vulneráveis? Como criar a cultura da abordagem integral, contextualizada e longitudinal? Como manter o espírito da equipe, e não robotizar os trabalho?" são, segundo o médico Marcelo Kolling, questões a serem respondidas e desafios a vencer.

Apesar de todos os problemas, avalia Fabiano, "acho que não é possível retomar o modelo anterior, mas a implantação dessa ferramenta em uma rede complexa como a nossa só terá sucesso se a discussão for ampla e bem fundamentada cientificamente".

"Gestores e médicos aprovaram o evento, primeiro da série de conversas e debates que serão realizados para adequada organização do processo de trabalho e acolhimento às urgências na atenção primária", avalia o diretor do sindicato e presidente da AMMFC, Artur Oliveira Mendes.

Entenda o Manchester

O Manchester classifica, após uma triagem baseada nos sintomas, os doentes por cores, que representam o grau de gravidade e o tempo de espera recomendado para atendimento. Aos doentes com patologias mais graves é atribuída a cor vermelha, atendimento imediato; os casos muito urgentes recebem a cor laranja, com um tempo de espera recomendado de dez minutos; os casos urgentes, com a cor amarela, têm um tempo de espera recomendado de 60 minutos. Os doentes que recebem a cor verde e azul são casos de menor gravidade (pouco ou não urgentes) que, como tal, devem ser atendidos no espaço de duas e quatro horas.
Fonte : Sinmed-MG



Avalie este conteúdo
Se você achou esse conteúdo interessante deixe seu voto clicando no botao "gostei". Os conteúdos melhor avaliados ficam em destaque para os outros usuários.


Este conteúdo tem 2973 visitas

Para votar, você precisa estar logado no site.


Comentários


Deixe seu comentário






Digite as letras que você vê na imagem ao lado:



Interatividade FENAM
Nossos canais na Web 2.0
 
Informativo eletr�nico
Cadastre-se e receba por email as not�cias da FENAM




Enquete

Você é filiado ao seu sindicato?


Não
Sim
Opa, selecione uma op��o.









Caso seja mais de um amigo, separe os emails por vírgula.

Para votar, você precisa estar logado no site.


Desenvolvimento: RBW Comunicação |
© Federação Nacional dos Médicos - FENAM (2008)