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MG: sindicato e estudantes de Medicina debatem Atenção Básica em Saúde



13/11/2013
Cerca de 30 pessoas, entre estudantes de Medicina, diretores do sindicato, professores e médicos, participaram, dia 9 de novembro, do seminário realizado pelo Sindicato dos Médicos de Minas Gerais (Sinmed-MG), em conjunto com a Direção Executiva Nacional dos Estudantes de Medicina (DENEM). O evento debateu a interface entre "Atenção Básica em Saúde, a Educação Médica e o Mundo do Trabalho".

O encontro trouxe para os estudantes uma importante visão do mercado de trabalho na área de Medicina da Família e Comunidade, na palestra do diretor Jurídico do sindicato, Artur Oliveira Mendes, há dez anos atuando como médico de família.

Por outro lado, os depoimentos dos estudantes mostraram o quanto os currículos estão equivocados em relação à atenção básica e acabam afastando os futuros médicos da especialidade. A segunda palestra do dia esteve a cargo de Vinicius Neves, da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) e coordenador Geral da DENEM.

A presidente do Sinmed-MG Amélia Pêssoa, abriu os trabalhos dizendo que a aproximação com o meio acadêmico, especialmente com os estudantes de Medicina, tinha dois objetivos. O primeiro: fomentar o debate sobre o currículo de forma que ele reflita a realidade do exercício da profissão. O segundo: a formação de novas lideranças sindicais, o que só vai ser possível ampliando o conhecimento dos estudantes sobre o meio sindical.

O evento teve transmissão on line via internet, sendo acompanhado por mais de 35 internautas, e pode ser acessado no youtube.  http://www.youtube.com/watch?v=knOSb_r7eok&feature=em-upload_owner

Na mesa de abertura, mediada pelo diretor de Pesquisas e Projetos do sindicato, José Sérgio Carriero Junior, o coordenador Geral da DENEM, Vinicius Neves, frisou que o principal foco da luta da entidade estudantil é a construção no Brasil de um sistema de saúde 100% público, gratuito, estatal, universal e integral. Destacou que o sindicato é um parceiro importante no processo e manifestou o desejo de fazer uma agenda que consiga canalizar os temas do evento para lutas mais práticas.

O diretor de Relação com Acadêmicos do Sinmed-MG, César Miranda dos Santos, lembrou que o sindicato é um espaço organizado e adequado para fomentar essas discussões e que o fruto disso será positivo para todos.

Qual o perfil para ser médico de família?

O primeiro palestrante do dia, Artur Oliveira Mendes, diretor jurídico do sindicato, fez uma esclarecedora apresentação sobre a realidade do médico de família e comunidade.

Iniciou trazendo um histórico do modelo de atenção básica. Implantado na Inglaterra, logo após a primeira guerra mundial, em 1920, a partir do relatório Dawson, o modelo é introduzido no Brasil em 1994, com as primeiras equipes de saúde da família. Em 1998, o Ministério da Saúde lança uma portaria reorientando a atenção primária no Brasil, mas o sistema ganha impulso somente em 2000, no governo Fernando Henrique.

Na defesa da atenção primária, o diretor lembra a declaração da médica americana, prêmio Nobel, Barbara Starfield, resultado de anos de estudo e uma longa pesquisa: "Os sistemas de saúde organizados a partir da atenção primária são mais resolutivos, mais custo-efetivos e mais bem aceitos pela comunidade".

Artur Oliveira lembra que todas as especialidades exigem perfil, não só a atenção básica como normalmente se apregoa. Feita a ressalva, ele destaca que o médico de família e comunidade, por atender todas as fases do ciclo de vida, precisa ter um perfil generalista; ser um profissional com formação humanitária, ter senso crítico e capacidade de reflexão.

O diretor enfatiza que perfil generalista não significa "vocação" e sim uma formação adequada, seja por meio da residência médica ou de outros processos: "Esse profissional está na base de organização de sistema de saúde. Não dá para ser qualquer um. É preciso ser o melhor que pudermos ter", diz.

Artur lembra que no Brasil pouco mais de 3 mil médicos, entre os 400 mil do país, têm título de especialista na área. Embora o índice não chegue a 1%, no total cerca de 10 mil médicos atuam em equipes de saúde da família, segundo ele. Na Inglaterra 51% dos médicos têm formação na área; no Canadá 55% e em Cuba 65%, para dar alguns exemplos.

No aspecto da formação humanística, o diretor destaca que não se faz Medicina de Família e Comunidade a portas fechadas. Para ele, o envolvimento do médico é fundamental para conhecer de fato como as patologias se desenvolvem: "Você precisa conhecer a realidade das pessoas, seus problemas, suas limitações. Não é só dar um remédio para dormir, mas saber por que ele não está dormindo", diz.

Componente social e doenças

A opinião do diretor é compartilhada com o estudante e coordenador da DENEM, Vinicius Neves. Para ele, o que determinam as condições de saúde são principalmente as condições sociais e de acesso a bens como moradia, escola, saneamento básico: "As doenças são muito mais resultado de como a sociedade se organiza do que de uma condição patológica".

Nesse contexto, segundo Vinicius a atenção básica é o ponto onde o médico tem a possibilidade de interferir nos diversos fatores causadores da doença. Destaca que a formação acadêmica é muito hospitalocêntrica: "Não é dentro de um hospital que vamos mudar a realidade de uma pessoa que não tem nem onde fazer uma caminhada", diz.

Reforça que para fazer essa interferência o médico e a equipe de saúde da família devem se inserir dentro da comunidade e saber identificar suas especificidades e vulnerabilidades. Por outro lado, a participação da população nesse processo precisa ser efetiva.

Ele lembra a importância do controle social e das entidades estudantis e médicas participarem dos diferentes fóruns de discussão como os conselhos municipais, estaduais e nacional de saúde e a Frente Nacional contra a Privatização de Saúde, à qual estão vinculados os fóruns populares de saúde.

Perspectivas não são otimistas

Quando se fala em perspectivas, considerando a política nacional de atenção básica, as conclusões não são otimistas. Estudantes e sindicato – avaliaram negativamente os programas Mais Médicos e Provab, ambos soluções paliativas que denotam falta de visão a longo prazo e de valorização da atenção básica. Muitos consideraram que estava havendo um desmantelamento do sistema de saúde no país, e que a terceirização é um problema grave na gestão da saúde.

"Acho que tudo passa pela organização do sindicato, dos estudantes, do movimento social. Todos precisam estar juntos com a mesma intenção para que a luta possa ter resultado. Vimos que não adianta os médicos irem para a rua sozinhos, colocar jaleco, nariz de palhaço se a população não estiver junto", diz o estudante Vinicius.

Segundo ele, 2014, com eleições e Copa do Mundo vai ser um ano de grande movimentação social e é preciso aproveitar esse momento se organizando desde já: "Temos que nos preparar para o ano que vem, tanto para incidir de maneira prática nas lutas como na consciência das pessoas", diz.

O diretor Artur Oliveira Mendes também vê com preocupação os rumos da saúde pública no Brasil: "A gente quer respeito, valorização, um espaço para trabalhar direito, qualidade na saúde em todos os níveis e isso não vem acontecendo. Acho que temos que cobrar isso do governo, sempre", finaliza.

Algumas conclusões que ficaram do evento

• A atenção básica não é tratada pelos gestores com a seriedade que merece. A visão distorcida sobre o papel da atenção básica acaba se refletindo também nas faculdades e na atuação dos professores no meio acadêmico.

• Os currículos das faculdades de Medicina passam longe de formar um médico para atuar na atenção básica. O futuro médico não tem contato "real" com o mundo da atenção básica no sistema público de saúde e não é estimulado a trabalhar nessa área, considerada "o primo pobre" da Medicina.

• O fato de os estudantes de Medicina, em sua maioria, virem de classes econômicas elevadas, dificulta ainda mais a aproximação entre eles e as comunidades onde estão os centros de saúde.

• Por ser uma especialidade relativamente nova, a Medicina da Família e de Comunidade não é compreendida adequadamente pelos próprios professores e pelos alunos. Tanto que sobram vagas de residência médica.

• Embora as Diretrizes Curriculares dos Cursos de Medicina orientem que a formação deva ocorrer em diversos cenários de prática, com destaque para a atenção básica, a formação médica ainda é hospitalocêntrica, De qualquer forma, mesmo que os estudantes estejam inseridos na atenção básica, não existe uma verdadeira integração entre o ensino e o serviço de saúde naquele cenário de prática.

• Por ser o fundamento de todo o sistema de saúde, a atenção básica deveria ser melhor compreendida e avaliada por todos os profissionais da saúde, inclusive na atenção secundária e terciária, para fortalecer o sistema de saúde como um todo.

• Subvalorizada, a atenção básica não tem merecido a devida atenção e investimentos dos governos, tanto no que se refere à oferta de uma estrutura adequada, como valorização dos profissionais que se dedicam à especialidade.

• Com ações como o Programa de Valorização da Atenção Básica (Provab) e o Mais Médicos, o governo está mostrando falta de comprometimento com a atenção básica e seus ideais. A lógica da atenção básica está no relacionamento com a comunidade, e esses programas não incentivam a fixação do médico e fogem a essa lógica. Ao invés de haver uma construção está havendo um desmantelamento do SUS. A redução do financiamento e a terceirização da gestão são alguns exemplos da política de saúde.

Fonte : Sinmed-MG



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