Médicos ou semideuses?
Foto: Alexandre Vieira
28/12/2009
A imprensa noticiou que no hospital municipal da cidade de Ivinhema (MS) dois médicos se desentenderam em plena sala de parto para ter a primazia de realizar o procedimento. Supostamente, o feto foi a óbito pela demora dos médicos em realizá-lo. O fato, por si só, grave, nos permite muitas reflexões e, pelo menos, uma certeza: a sociedade avançou, tem consciência de seus direitos, tem acesso à informação, questiona, cobra e exerce sua cidadania. São conquistas dos brasileiros alcançadas com muita luta e sacrifício. O estado democrático de direito e a ampliação da organização do povo tem suas consequências. Em geral, positivas. Enfim, a sociedade mudou, mudaram as relações, mudou a postura dos cidadãos.
O médico, há muito, se despiu de sua aura de infalibilidade e, felizmente, perdeu a postura de semideus. Somos trabalhadores como tantos milhares de outros. Temos responsabilidades como qualquer pai de família; precisamos nos manter atualizados cientificamente; temos de cumprir contratos de trabalho ou similares. Similares? Sim, similares. É que muitos e muitos médicos ainda não conquistaram um contrato de trabalho e não têm acesso aos mais elementares direitos sociais. A remuneração média caiu, os médicos se refugiaram no múltiplo emprego e ampliaram sua jornada de trabalho. O resultado dessa mudança é previsível.
Precisamos entender essas mudanças para perceber que muitos conflitos entre médicos e pacientes delas decorrem. Entretanto, a maior responsabilidade está com os médicos. Trabalhamos, em geral, sob péssimas condições. A remuneração é vil, os insumos são insuficientes, a responsabilidade crescente. O nível de stress é altíssimo e precisamos reagir e acordar para o precipício que está a um passo. Organizar-nos para nos defender, defender a qualidade do nosso trabalho e, principalmente, defender a saúde dos nossos pacientes.
A responsabilidade do médico é imensa. Diante do paciente, o médico é que detém o conhecimento e o poder, tem a iniciativa e a liderança. Pacientes e familiares apresentam-se fragilizados. Desse modo, apesar de compreender a angústia e o stress do médico e a crise por que passa o exercício da nossa atividade profissional, nada justifica que não façamos tudo que estiver ao nosso alcance em benefício do paciente. Tenho certeza que perdemos a aura, mas, de certa forma, continuamos semideuses. E temos de estar à altura dessa expectativa.
*Dr. Waldir Cardoso é médico cardiologista e diretor da Federação Nacional dos Médicos.
Fonte : Waldir Cardoso, médico e secretário de Comunicação da Federação Nacional dos Médicos (FENAM)
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